Crónica·15 de Março de 2026·Leitura de 7 min

Quando as águas recuam, começa o verdadeiro trabalho

Na semana passada, algo importante aconteceu — não nas nossas salinas, mas numa sala de reuniões em Olhão. O que sucede depois das tempestades.

Flamingos reunidos na Salina do Serro do Bufo ao pôr do sol, com montes de sal a secar na margem.
15 de Março de 2026

Na semana passada, algo importante aconteceu — não nas nossas salinas, mas numa sala de reuniões em Olhão. Representantes da comunidade salineira de Castro Marim reuniram-se com o GAL Pesca Sotavento Algarve para discutir algo que raramente chega às notícias, mas que é enorme para qualquer produtor artesanal de sal da região: o que sucede depois das tempestades.

Já escrevemos sobre o Kristin e o Marta, as marés recorde de 3,9 metros, o Guadiana cheio e os muros de barro que resistiram. O que ainda não vos contámos é que os danos físicos foram apenas parte da história. A ferida mais profunda está na própria água — a perda que temos de carregar.

A 12 de Março, a entidade que gere os fundos europeus da pesca e do desenvolvimento costeiro na nossa região sentou-se com a comunidade salineira. Vieram discutir três coisas: o apoio aos danos físicos em salinas e aquacultura, o apoio ao rendimento dos produtores que enfrentam uma campanha mais curta sem culpa própria, e uma linha de financiamento, há muito em falta, dedicada à salicultura tradicional marinha.

Só esse último ponto diz tudo sobre o lugar que o nosso sector ocupa nas políticas públicas. Quatro mil anos a fazer sal no Algarve, e nunca houve uma linha dedicada a esta actividade.

Quatro mil anos a fazer sal no Algarve, e nunca houve uma linha dedicada a esta actividade.

A resposta honesta

Prometemos-vos total transparência. Fica aqui.

Na reabilitação — salinas, armazéns, equipamento —, sim, existe apoio financeiro. Pode ser acedido através de candidaturas formais ao MAR2030, administradas localmente pelo GAL Pesca. O processo é longo e burocrático, com ecos do antigo PRODER. Não há mecanismos de emergência, nem fundos de via rápida, nem orientação por parte do ministério de tutela. Mas a porta não está fechada. Para quem tenha paciência e documentação para a atravessar, o caminho é real.

A nossa cooperativa irá escrever formalmente à Ministra da Agricultura e do Mar, pedindo o mesmo tipo de apoio que foi estendido aos operadores da pesca após eventos comparáveis. É o pedido certo. Se será ouvido é outra história.

Quanto a uma linha dedicada à salicultura tradicional? Continua em falta. Mas o MAR2030 não restringe candidaturas por código de actividade, o que significa que os produtores podem apresentar projectos de reabilitação. Não é a solução que este sector merece. É uma abertura.

O que isto significa para a Safra 2026

Está a dizer-vos que a Safra 2026 será uma colheita desafiante. Provavelmente chegará mais tarde. E que por trás de cada pitada dela está uma época inteira de obras de reparação, uma carta a uma Ministra, uma equipa no barro de Venta Moinhos — e as aves. Os flamingos, os alfaiates, os pernilongos, já a regressarem às salinas à medida que a água baixa.

Eles voltam sempre. E nós também.

De Castro Marim para a sua mesa — merecido em cada grão.

← Todos os artigos